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Vestido de seda vermelho

19 jun

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O vestido de seda vermelho  repousa delicadamente dentro do armário. Uma noite, e isso já faz alguns anos, ele resplandeceu por algumas horas durante um jantar íntimo. E durante essas poucas horas ele foi mais que um vestido, foi parte de um rito, labareda.

Ela preparou tudo em segredo. O restaurante fechado só para os dois, o menu escolhido à dedo, as rosas  enfeitando a mesa. Ele não sabia de nada mas se espantou quando a pegou em casa e a viu com aquele vestido. Se espantou com tudo. O vinho, as taças, as rosas. A vida vibrante, latejante. Tudo apaixonante e memorável, adjetivos desgastados para enfeitar algo único e irrepetível como uma coreografia improvisada. Naquela noite eles sairam do comum dos dias,do cotidiano deles mesmos para um não-lugar, uma paisagem inventada quase que por mágica.

Um ano depois ele partiu o coração dela. Mas o que isso importa se, afinal, aquela noite existiu?


Direção da imagem: Sandra Suy

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Boudoir 1978

22 abr

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A mulher no espelho se maquiava absorta e por certo nem percebia que tudo estava perfeito, o olhar bem marcado pelo lápis, a boca bem desenhada pelo batom. Ela vestia um tailleur vinho, de risca,  e uma camisa branca de corte masculino. Os cabelos longos, negros como um mar dentro da noite, estavam adornados apenas por uma presilha e isto era o suficiente.

Em frente ao espelho da penteadeira ela, sem dúvida, era naquele exato instante a mulher mais bonita do mundo. E a mais elegante. Por fim, colocou os brincos e o colar de falsas pérolas. Na penteadeira, as pequenas prendas do seu pequeno cosmos. A maquiagem já bastante gasta, uma caixa redonda de talco com aplicador macio e felpudo, vidros e vidros de perfume das mais diversas cores e formatos, alguns batons de embalagem verde-escuro, um pequeno camafeu.

Enfim, levantou e só então viu que um par de olhos observavam atentamente cada gesto, cada movimento. Uma menina que nem seis ainda havia completado espreitava aquele admirável mundo novo e aprendia que a beleza é um modo de estar no mundo.

Naquele fim de tarde ela, a menina, levou para a festinha da escola a mãe mais bonita de todas.

Direção da imagem: Pink Flamingo

Inesquecível

29 mar

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As férias na casa dos avós era igual ao que sempre fora. Os morangos do pomar, mais azedos do que nunca, as histórias dos fantasmas acompanhando a menina com olhos atentos pelos longos corredores, os suspiros que o avô lhe trazia quando passava na padaria, a velha máquina de costura da avó sempre a postos. Enfim, a alegria de sempre.

Um dia, uma novidade, um tecido lindo, estampado, em cima da mesa, aguardando a hora de se transformar em uma pequena beleza. Os olhos da menina cresceram, se iluminaram. Ora, não era por um brinquedo, nem por um doce, nem mesmo pelos livros, sua paixão mais constante, que a menina, tão miúda, se encantara. Um pedaço de tecido a seduzira.

Não disse nada a ninguém. Nem pediu. Voltou às bonecas, às brincadeiras com o irmão, companheiro constante de aventuras num mundo povoado de gente grande. Dias se passaram, as férias também. Um dia, seus pais a levaram de volta para casa e o tecido bonito nem despediu-se dela, pois não o vira mais depois daquela tarde.

A vida voltou a correr normal. As aulas, o quintal, a bicicleta azul. A bicicleta azul, o quintal, as aulas. Até que o carteiro trouxe o pacote em papel pardo. Dentro dele, um pequeno vestido, o vestido mais lindo do mundo feito de amor e de um certo tecido estampado.

Era o dia do seu aniversário de nove anos. Um dia inesquecível.



Direção da imagem: vestido miu miu em   fashion heroines